A difícil tarefa de ensinar valores morais aos filhos exige dedicação e exemplos concretos

22/07/2012 - por Liessin | Seja o primeiro a comentar!

Ilustração gentilmente cedida por Rafael Marchesini através do site http://www.sxc.hu/profile/marczini

Por Malu Echeverria

A melhor maneira de uma criança compreender conceitos abstratos, como gratidão e honestidade, é por meio de exemplos concretos. Dizer obrigado, falar a verdade ou cumprir os combinados são coisas que se aprendem na vivência do dia-a-dia. “A fala não tem o mesmo peso que um gesto”, acredita a psicóloga Magdalena Ramos, coordenadora do Núcleo de Casal e Família da PUC, em’ São Paulo. Ensinar valores aos filhos não significa apenas transmitir informações e normas. “É como se fosse ensiná-lo a gostar de música. Não basta apenas dizer que essa ou aquela canção é a melhor. Você tem de ouvir música em casa, para que seu filho tenha uma referência, incentivando-o a apreciá-la também. É cultivo de uma prática”, define o educador José Sérgio Fonseca de Carvalho, do Departamento de Filosofia da Educação, da Universidade de São Paulo.

Dizer uma coisa e fazer outra pode confundir a cabeça do filho. “Os pais exigem que a criança respeite o colega, mas, ao mesmo tempo, atravessam o sinal vermelho na presença dela”, diz Magdalena. Deve haver, portanto, coerência entre discurso e atitudes. “Ao observar coisas erradas, a criança pode achar que são condutas normais”, diz Carvalho. Essa preocupação faz parte do cotidiano da administradora Cintia Cabral de Assis Jordão, mãe de Beatriz, 5 anos, Júlia, 2 anos e 10 meses, e Laura, 11 meses. “Costumo me policiar para não fazer nada errado na frente de minhas filhas. Outro dia, quando liguei o celular no carro, a Beatriz logo me lembrou que é proibido conversar ao telefone e dirigir, como eu mesma lhe havia dito. Sei que sou observada.”

É por volta dos 5 anos que a criança começa a ter noções de ética, direitos, deveres e responsabilidade. “Elas são pré-morais, pois ainda não absorveram as regras. Comportam-se de acordo com o que os adultos dizem, por medo, prazer ou necessidade de aprovação. Mas não é preciso esperar que cresçam para iniciar o aprendizado. As normas são incorporadas aos poucos, graças à insistência dos pais”, afirma a psicóloga Ângela Biaggio, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Os valores mudam conforme o núcleo familiar. Porém, existem alguns princípios tais como democracia, tolerância e organização, que estão além da escolha da família. Eles são necessários para que seu filho saiba enfrentar desafios com segurança e consideração pelo próximo, tornando o mundo um lugar melhor para ele e para todos.

1. Respeitar o direito dos outros

Da empregada ao melhor amigo, a criança deve entender que as pessoas têm sentimentos e é preciso respeitá-los. Para tanto, toda vez que ela bater em alguém, pergunte: “Você gostaria de apanhar também?” Isso é necessário para que ela aprenda a se colocar no lugar cio outro. Abuse de histórias e contos de fadas, que sempre têm uma moral bem definida, para enfatizar os valores. Esperar sua vez, seja no parque ou na hora do lanche, pedir licença e ser educado com os mais velhos estão incluídos aqui. É importante ressaltar que para a criança assimilar tais hábitos, eles devem ser praticados no dia-a-dia da família. Não faz sentido cortar a fila cio cinema ou ser rude com o porteiro, se você quer que seu filho tenha consideração pelas pessoas.

2. Falar a verdade

Desde muito cedo, a criança descobre que a mentira pode trazer algumas “vantagens”, como livrá-la de um castigo. Esse comportamento é normal e esperado em certa fase da infância, pois a criança confunde realidade e ficção. Mas, por volta dos 6 anos, o hábito passa se não for estimulado. Por isso, fale a verdade sempre. Em vez de brigar, estimule-a a contar o que realmente ocorreu.

3. Gratidão

Não significa apenas dizer , obrigado, mas também ficar feliz ao receber um presente, mesmo que seja uma bala. Apesar de a criança ser naturalmente egocêntrica, é preciso deixar claro que o mundo não está à disposição dela. Por isso, toda vez que seu filho pedir alguma coisa sem mencionar “por favor”, insista: “Como é que se diz mesmo?” ou “Qual é a palavra mágica?”

4. Generosidade

Ser egoísta não traz benefícios a ninguém e isso a criança percebe desde cedo. Basta lembrá-la que aquele coleguinha que não gosta de emprestar os brinquedos e dividir o pacote de bolachas geralmente não é bem-vindo nas brincadeiras. Com o tempo, ela vai descobrir que palavras e ações fazem os outros sorrir, e ser generosa faz com que os outros sejam legais com ela também; Que tal fazer uma arrumação no armário e doar os brinquedos e roupas que não usa mais para uma instituição de caridade? Se ela insistir em ficar com alguma coisa que você acredite ser dispensável, diga que a criança que receber o presente vai ficar muito feliz.

5. Responsabilidade

Para se conscientizar de que todos os seus atos têm conseqüências, a criança precisa de limites claros. Eles são necessários para que ela saiba até onde pode ir, sem prejudicar os outros e a si mesma. Se as normas forem desrespeitadas, seu filho entenderá que esse gesto terá uma conseqüência. Isso deve ficar claro mesmo naquele dia em que os pais, vencidos pelo cansaço, fingem não dar bola para o quarto que o filho deixou bagunçado. Todos têm direitos e deveres. Se ele se recusar a ir à escola, alegando preguiça, lembre que, assim como os pais têm de trabalhar todos os dias, a obrigação da criança é estudar. Caso contrário, os efeitos são muito graves: quem não trabalha não ganha dinheiro para sobreviver, quem falta na aula não aprende a matéria.

6. Amor

Amar se aprende amando. Nunca é demais dizer a seu filho o quanto você o ama e como sua existência o deixa feliz. Demonstre isso não apenas com palavras, mas com gestos carinhosos: beijos, abraços, pequenos bilhetes com frases amorosas colados propositalmente na geladeira, porta-retratos que registrem momentos felizes, enfeitando a casa. É importante que ele perceba, ainda, que as pessoas que o cercam também se amam. Os pais podem ensinar tal valor sendo naturalmente carinhosos diante das crianças e ainda, falando bem dos amigos e dos familiares.

7. Conviver com as diferenças

Crianças não nascem preconceituosas. Elas assimilam essas condutas observando os adultos. Por isso, sempre que tiver oportunidade, condene veementemente qualquer tipo de preconceito, seja de classe, cor ou religião. Para reforçar o conceito de igualdade, você pode presentear sua filha com uma boneca negra ou viceversa. Num lar em que todos têm o direito de expressar suas idéias, desde que não se ofenda o outro, fica mais fácil entender que as pessoas podem ter opiniões diferentes – e que isso enriquece a convivência. Os outros não são piores do que a gente porque são diferentes. Quando seu filho apontar um deficiente físico na rua, explique que nem todas as pessoas são iguais.

8. Pedir desculpas

Desculpar-se, às vezes é fácil. Corrigir o erro exige – e ensina – muito mais. Para a criança compreender o verdadeiro sentido de justiça, os pais devem encorajá-la a reparar seus erros. Se o filho quebrou o brinquedo do irmão, além de pedir desculpas, sugira a ele que lhe ofereça algo em troca. Pode ser outro brinquedo ou, ainda, um desenho feito com carinho.

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